Natal é pura magia!
Ivana Maria França de Negri
Por mais que as vicissitudes da vida teimem em sabotar o Natal, ele é sempre mágico para as crianças. A gente cresce, mas as lembranças da infância acordam nesse período encantado.
Quando deixamos de ser crianças, a magia fica guardadinha lá dentro da gente em algum compartimento secreto, hibernando. Quando chegam os filhos, voltamos a ser crianças com eles. Mas estamos muito preocupados em ganhar a vida, gerar patrimônio, educá-los, desenhar o futuro, construir casa e outras coisas.
Num piscar de olhos, nossas crianças viram adolescentes, pois é a lei natural da vida, e rapidamente se tornam adultos também. Mas a vida sempre nos reserva surpresas, e um belo dia, quando menos esperamos, já no outono da existência, os netos chegam, e a magia volta com mais força.
Já não precisamos dedicar tanto tempo para ganhar a vida, nem para educar e nossa casa já está construída. Do alto de nossa sábia longevidade, sabemos muito bem colocar na ordem hierárquica o que é mais importante e o que pode ser deixado de lado. E como avós, vamos criando gratas memórias para os netos, que certamente vão se lembrar quando forem adultos, dos Natais que vivenciaram com os “velhos”. E essas lembranças serão eternas e encantadas.
Quando dezembro chega, e parece que a roda do tempo gira cada vez com mais vigor, chegam para mim, nítidas as imagens do Natal da minha infância. Minha tia, irmã da minha mãe, era a mais animada. O ritual consistia em colocar na “vitrola” músicas natalinas, cujo som, vinha de um disco vinil da orquestra de Ray Connif, com composições belíssimas. E o presépio começava a ser montado pelo meu irmão, que acrescentava além das peças tradicionais, muitos animaizinhos e não apenas bois, burrinhos e carneiros. Até elefantes, ursos e girafas havia naquele presépio inusitado.
Essa minha tia querida, pessoa de alma colorida, adorava colocar luzinhas na casa toda e nas árvores do jardim da frente. Ainda não existiam os frágeis pisca-piscas da China e eram colocadas lâmpadas de várias cores por um técnico eletricista. Eram resistentes e dificilmente queimavam.
As compras natalinas eram uma festa a parte. Nozes, castanhas, panetones, uvas, cerejas, figos secos, uma garrafa de vinho e outra de champanhe para o brinde, tudo comprado no Empório Brasil que ficava na rua Governador. E os adereços para os enfeites, eram adquiridos na Casa do Bolinha, que vendia artigos para festas.
O perfume dos doces, que vinha da cozinha, era delicioso. Minha mãe fazia sonhos recheados com creme, quindins, roscas em trança, pavês, rabanadas - fatias de pão fritas polvilhadas com açúcar e canela. O antepasto de berinjela era divino e o macarrão da minha mãe, no azeite e alho, com muito orégano e folhas de manjericão, lembro do gosto até hoje.
Um Papai Noel não podia faltar para entregar os presentes, e cada criança que ia descobrindo que o bom velhinho era alguém da família, guardava segredo e não contava para os menores para a magia continuar. Um sininho tocado ao longe causava alegria e um pouco de medo também. Ele vinha com os presentes pedidos nas cartinhas escritas pelos irmãos mais velhos.
E Natal é isso, recordar a infância, reunir família, abraçar, alimentar sonhos, contar histórias, lembrar com carinho dos que já partiram.
E como é bom colocar pedacinhos coloridos de magia no coração das crianças! Assim, a mágica nunca acaba...
Ivana Maria França de Negri é escritora